Por que o país é tão rico e a nação é tão pobre – Por Ivone Boechat

Por que o país é tão rico e a nação é tão pobre – Por Ivone Boechat

Não precisa ser economista formado na Harvard para se ter certeza da origem do enriquecimento estrondoso e vertiginoso deste país. Quando se divulgou que o Brasil tem mais dinheiro nos bancos do que a Inglaterra, ninguém duvidou. Vá hoje conferir a conta bancária do professor; do médico iniciante; da enfermeira; do bombeiro; da polícia; da maioria dos aposentados; de todos os profissionais operários, gemendo e se contorcendo no trabalho forçado pendurado no trem, no ônibus entupido, no engarrafamento de horas e horas. Veja o retorno, em benefício, para todas as pessoas que estudaram, se esforçaram, se dedicaram, contribuíram para sonhar com um mínimo para a sobrevivência e o saldo negativo da injustiça ali depositada. Mas o país é uma potência!

Não precisa ser expert em nada. Basta olhar a situação das escolas públicas, a maioria só tem chocalhos (computadores, laptop, tablet). Os alunos não têm professor de matemática, ciências, história. Experimenta olhar pra cima, se o telhado não cair na cabeça, abra o guarda-chuvas, porque ali as goteiras provocam mudanças, melhor explicando: as crianças mudam de lugar para não se encharcarem. Na conta da moralização da educação não tem o suficiente nem para pagar o mínimo legal ao professor. Mas o país é uma potência!

Não precisa ser especialista em saúde. Basta o cidadão precisar de atendimento médico, para uma simples disenteria e o atendimento é um vexame. O sujeito desidrata e nem desmaiar consegue por falta de espaço para cair.  Fica em pé ali, até desistir… ou morrer. Imagina então, alguém que precise disputar uma vaga no vestibular da morte e ser aprovado para ser transferido para a UTI, numa cama de corredor (do quarto nem pensar) ou na maca do pronto-socorro – que deveria mudar o nome para matadouro. O dinheiro que deveria ser investido na saúde nunca chega a tempo. Mas o país é uma potência!

Não precisa ser gênio para decifrar o código de prioridades deste país que resolveu ficar riquíssimo à custa do flagelo da nação. Passe pelas astronômicas obras das olimpíadas, da copa, dos jogos olímpicos. Não faltam verbas. Não que não sejam importantes, mas olhe como vivem os brasileirinhos nas encostas dos rios da Amazônia. Não precisa ir tão longe, dê uma volta nos arredores de qualquer cidade. Mas o país é uma potência

Não precisa ser o homem mais informado do mundo. Passe na casa de um presidiário e olhe na geladeira ou no armário o estoque de compras. Todo mês entra ali o auxílio reclusão. Faça a mesma supervisão na casa da mulher que perdeu o marido com um tiro na cabeça… total abandono! Por que não assistir também às vítimas? Ou então desemperrar o processo de indenização no Fórum que só se resolve depois que a vítima morreu na véspera de receber? O preso custa, em média, ao Estado dez vezes mais que um aluno. A escola ruim ajuda a sustentar o número crescente de presos adolescentes. A evasão é um a bomba social de grande efeito moral. Mas o país é uma potência!

Não precisa comprar uma passagem para conhecer Brasília, porque a TV e a Internet e os programas de futilidades sociais mostram a toda hora a esbanjação nos coquetéis das comissões de alto nível. E o nível é tão alto que a comissão não consegue chegar aos problemas que se contorcem nas gavetas, onde ficam arquivados milhões de processos, principalmente com pedidos de revisão das aposentadorias corroídas pelo desprezo e todo tipo de pedido de socorro, em todas as áreas sociais! Tudo ali se arrasta há anos! Mas o país é uma potência!

Não precisar ser phd em finanças. O Brasil é uma potência na Economia mundial! O brasileiro sabe como o país joga fora o resultado do seu sacrifício. Sabe, porque dói no corpo e na alma dos raquíticos operários o horror de impostos cobrados com juros e correção monetária: quase uma centena de tributos. Sem falar em laudêmio; pedágios nas estradas; aforamento e tarifas públicas, que não são considerados tributos. Apenas os recursos referentes às taxas têm destinação específica. Os demais recursos arrecadados, que são o suco do suor de milhões de brasileiros, podem ser usados da maneira mais conveniente aos governantes. O país é uma potência!

Ivone Boechat

Ivone Boechat

É natural do Estado do Rio de Janeiro, Educadora, Autora de 16 livros, membro da Academia Duquecaxiense de Letras e Artes de Duque de Caxias-RJ. Recebeu a Medalha “Lux in Tenebris” do Sindicato dos Professores do Estado do Rio de Janeiro. PhD – Psicologia Educação e Consultora em Educação

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