Vazamento expõe acesso a 58 mil câmeras do Smart Sampa em São Paulo; prefeitura afasta servidor e nega falha no sistema

Vazamento expõe acesso a 58 mil câmeras do Smart Sampa em São Paulo; prefeitura afasta servidor e nega falha no sistema

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Investigação jornalística revelou que dados sigilosos do programa de monitoramento ficaram disponíveis na internet por cerca de 11 meses; caso levanta novas questões sobre privacidade e proteção de dados

Um vazamento de dados sigilosos envolvendo o Smart Sampa, o maior sistema de monitoramento por câmeras e reconhecimento facial da América Latina, veio a público nesta terça-feira (20). A Prefeitura de São Paulo investiga o caso, que permitiu por quase um ano o acesso de pessoas não autorizadas a mais de 58 mil câmeras ligadas à plataforma e espalhadas por diversos pontos da capital.

A informação foi apurada pelo portal UOL e divulgada nesta terça-feira (20). Diante da repercussão, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) confirmou o vazamento, mas contestou a classificação do episódio como falha estrutural de segurança.

O que a investigação revelou

De acordo com a reportagem publicada pelo UOL, uma falha de segurança teria permitido o acesso indevido a informações sigilosas de mais de 58 mil câmeras integradas ao sistema. Entre os equipamentos afetados estão câmeras instaladas em ruas, escolas, creches e hospitais.

Os dados estavam disponíveis em um repositório público na internet e incluíam 181 logins e senhas de usuários autorizados a acessar o sistema, além de dados de mais de 6.000 agentes de segurança. Após a reportagem, os dados sensíveis foram removidos.

Segundo a reportagem original, os jornalistas responsáveis pela investigação desenvolveram uma interface para navegar pelo sistema de monitoramento e, em teste realizado em 7 de outubro, conseguiram visualizar imagens captadas por oito câmeras instaladas em equipamentos privados nos Campos Elíseos, na região central de São Paulo. Também foram acessadas imagens de equipamentos públicos, incluindo unidades de saúde e creches.

A investigação apontou ainda que determinadas credenciais permitiam acessar diretamente a plataforma tecnológica utilizada pelo Smart Sampa sem autenticação em duas etapas. Também foram identificadas ferramentas de consulta a nomes, CPFs, placas de veículos e registros de ocorrências.

A versão da Prefeitura de São Paulo

Após a divulgação do caso, a Prefeitura de São Paulo confirmou que houve vazamento de dados, mas negou que o episódio tenha sido provocado por uma falha de segurança da plataforma. Segundo a gestão municipal, o acesso indevido ocorreu por meio da utilização irregular de credenciais de um servidor público, sem que houvesse invasão aos sistemas do Smart Sampa.

A gestão Ricardo Nunes (MDB) declarou que houve um “vazamento ilegal de dados por parte de um servidor”, que foi identificado e afastado de suas funções até o final das investigações, que estão sendo conduzidas pela Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana.

Em nota oficial, a administração municipal acrescentou que “não houve em nenhum momento qualquer uso indevido da plataforma”, além de não haver “nenhuma fragilidade nos mecanismos de segurança” do Smart Sampa. A reportagem do UOL acessou o sistema a partir de um vazamento ilegal e tenta classificar o caso como falha na segurança, agindo, assim, com irresponsabilidade e desinformando a população.

O programa conta com a fiscalização do Tribunal de Contas do Município e consultoria especializada em governança e privacidade de dados. O repositório de dados disponibilizado ilegalmente na internet foi retirado do ar pela pasta e não havia nele menção a senhas de acesso, afirmou a Prefeitura — informação que contrasta com os achados da investigação jornalística.

A Secretaria Municipal de Segurança Urbana informou ainda que reforçou mecanismos de proteção da plataforma, incluindo senhas exclusivas, autenticação de dois fatores e validação por códigos enviados por SMS.

Contrato de R$ 588 milhões e contexto do programa

Lançado em 2024, o Smart Sampa integra imagens de câmeras públicas e privadas e utiliza inteligência artificial para comparar imagens com bases de pessoas procuradas pela Justiça, identificar veículos roubados e localizar desaparecidos. O contrato de implantação do programa foi firmado por R$ 588 milhões, com duração de cinco anos, o equivalente a aproximadamente R$ 9,8 milhões por mês.

Segundo balanço divulgado pela administração municipal, o Smart Sampa já contribuiu para a captura de 3.628 foragidos da Justiça e a localização de 284 pessoas desaparecidas.

Em junho de 2026, a Prefeitura lançou o aplicativo Smart Sampa Cidadão, que permite aos moradores colaborar com a identificação de veículos com restrições por meio das câmeras dos próprios celulares. Na mesma ocasião, Ricardo Nunes anunciou a contratação de um helicóptero equipado com tecnologia de monitoramento, com custo estimado em R$ 2 milhões mensais.

Pesquisa questiona eficácia do sistema

O episódio de vazamento se soma a questionamentos anteriores sobre a efetividade do programa. Estudo realizado pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC) avaliou o impacto do programa Smart Sampa e, de acordo com seus resultados, o programa não impactou de forma significativa nos índices de segurança pública. O estudo avaliou três indicadores de criminalidade — furtos, roubos e homicídios — e dois de produtividade policial — prisões por flagrante e por mandado.

O estudo conclui que o programa é caro e ineficaz. “A ausência de impacto mensurável, mesmo após um ano de operação e com uso massivo de recursos públicos e agentes de segurança, sugere que o reconhecimento facial tem sido mais eficaz como instrumento de propaganda política do que como política pública baseada em evidências”, aponta a pesquisa.

Segundo o estudo, também houve casos de erros de identificação documentados, que, somados à falta de regulação específica e ao histórico de vieses raciais associados a esse tipo de tecnologia, compõem um quadro que impõe preocupações sérias sobre o custo social do programa.

O levantamento também faz referência a episódios concretos de identificação equivocada. Segundo o Laboratório de Políticas Públicas e Internet, 23 pessoas presas foram liberadas por inconsistência no reconhecimento facial.

A Prefeitura de São Paulo contesta as conclusões do CESeC, argumentando que a comparação entre a capital e municípios com características socioeconômicas distintas não seria metodologicamente adequada. A Secretaria Municipal de Segurança Urbana afirma que o Smart Sampa oferece uma assertividade de 99,5%, e que “não tivemos nenhuma pessoa presa por erro ou falha do Smart Sampa”.

LGPD e o debate sobre vigilância em massa

O caso reacende o debate sobre a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e a regulamentação de sistemas de reconhecimento facial no Brasil. O Smart Sampa foi alvo de intensas críticas por parte da sociedade civil e tem gerado debate na fronteira entre democracia, segurança pública e direitos fundamentais.

Na própria matriz de riscos anexa ao edital original do programa, havia apontamento de “alta probabilidade” de acesso não autorizado a dados pessoais, com indicação de que as medidas para conter esses riscos deveriam seguir as definições da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

O histórico judicial do programa também reflete a tensão regulatória. O Tribunal de Justiça de São Paulo chegou a suspender a licitação do programa, em decisão que afirmou que pesquisadores de diversas áreas “apontam para riscos concretos de reprodução do racismo estrutural no uso do sistema de monitoramento por reconhecimento facial porque essa tecnologia reproduz padrões de discriminação incorporados na cultura e na dinâmica institucional das sociedades”. A licitação foi posteriormente retomada após recurso da Prefeitura.

Proposta nacional e eleições 2026

O programa paulistano serve de modelo para propostas em âmbito federal. O Smart Sampa serviu de referência para uma das principais propostas de segurança pública do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). Durante a campanha eleitoral, o senador anunciou a intenção de criar o Smart Brasil, sistema nacional de monitoramento por câmeras e reconhecimento facial integrado a bancos de dados criminais, com a previsão de instalação de mais de 1 milhão de câmeras em parceria com estados e municípios.

O vazamento divulgado nesta terça-feira deverá ter desdobramentos administrativos e possivelmente jurídicos, à medida que autoridades de proteção de dados e órgãos de controle avaliam a extensão da exposição e as responsabilidades envolvidas. A Corregedoria da GCM segue com as investigações sobre a conduta do servidor identificado.


Fontes consultadas

Richard Valdivia

Mestre pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). É editor e redator desde 2014 de diversos canais na internet. Entusiasta de novas tecnologias, mídias sociais e empreendedor digital. Nômade Digital na prática, está sempre em busca de novos desafios, como programar para plataformas emergentes.

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